Monday, May 17, 2010

SOBRE MÃES E FILHAS


Neste dia das mães, eu saí com a minha sogra pra celebrar. Estamos no carro, ela faz a pergunta que não quer calar:

- Você e o Mike não pensam em filhos?

- Não.

- Tipo... nunca?

- Ah, eu não posso prever o dia de amanhã, mas o aborto é legalizado aqui, então acho difícil eu ter filhos.

Silêncio desconcertante.

- Mas veja bem, em dois anos, eu vou me aposentar, aí eu posso cuidar do seu filho pra você ir trabalhar, se é essa a sua preocupação.

- Não, não é essa minha preocupação. Eu só não tenho essa vontade louca de engravidar. Sabe? Não é a minha cara.

- Mas eu vi no jornal que mulheres que nunca têm filhos têm muito mais chances de ter câncer de útero e de mama.

Pára tudo. Aonde eu tinha ouvido sobre eu mesma morrendo de câncer? Ah, lembrei. No consultório do Dr. Mancini. Lembram? Quando eu fui fazer os exames para a imigração. Dei a mesma resposta para minha sogra que dei ao Dr. Mancini:

- Eu vou ficar com o câncer. Câncer tá bom pra mim.

Leitores, eu sei que muitas pessoas têm esse desejo maior que a vida de ter filhos. Eu acho legal, quero dizer, naquelas, né? Existem filhos e filhos. Lembro de uma vez, da última vez que voltei ao Brasil, eu estava no ônibus e tinha uma menininha de uns 4 ou 5 anos ao meu lado. A mãe dela gritava:

- Se você não parar com gracinhas, eu te largo aqui no ônibus, hein!

A pequeninha fez uma cara de choro, e eu não agüentei de peninha:

- Não esquenta. Se sua mãe te deixar aqui, eu te levo pra minha casa.

A menina olhou bem pra mim e respondeu:

- Eu não quero ir com você, porque você é feia!

Pequena cadela vagabunda!

Eu abaixei na altura dela e falei baixinho:

- Você é um protótipo de putinha miniatura, sua vaca mal criada.

- Mãe, ela me chamou de vaca mal criada!

- Quê? Eu? Olha, essa sua filha é impossível, hein? Você tem que dar um jeito nisso...

A mãe da menina me olha torto. Eu olho torto de volta. A menininha faz uma careta pra mim e eu volto a sussurrar baixinho:

- Va... ca.

- Mãe, ela tá me chamando de vaca de novo!

- Ah menina! Pára com isso. Eu sou adulta. Vou ficar falando esses nomes feios pra criancinha?

- Mãe, eu não tô mentindo! Ela não gosta de mim!

A mãe muda de lugar no ônibus com a sementinha do mal. Eu fico aliviada. De repente, do banco da frente, vejo uma cabecinha subindo: era a pirralha de merda. Ela olhou bem pra mim e mostrou a língua.

“Filha da puta! Isso é o que você tem de melhor, sua bucetinha? Tome isso!” – pensei enquanto mostrava o dedo do meio pra ela.

Foi aí que a mãe dela me catou no ato, pelo reflexo da janela do busão.

- Não acredito que você está mostrando o dedo do meio pra uma criança!

- Não que isso seja desculpa, mas a sua filha é uma praga.

- Ela é só uma criança!

- Então, imagina quando ela crescer... que desgraça isso vai ser.

Chego na casa da minha mãe, que mora num puta gueto desgraçado, nos confins de São Paulo. Contei o ocorrido no busão pra ela.

- Ai, credo! Filha, esse seu negativismo tem que ter um limite! Crianças são milagres. Já dizia aquele alemão: “o homem nasce bom, a sociedade os corrompe”.

- Mãe, Rousseau, acho que ele era suíço.

- Nossa, um que não é alemão! Que achado, hein?

- E.. milagre? Que porra de milagres são esses? Você vá na estação da Sé às seis da tarde pra ver quantos milagres estão lá, amontoados no metrô, parecendo gado. Seis bilhões de milagres no mundo, mãe! Seis bilhões de milagres só pra encher o mundo de bosta.

- Afe! Você tá atacadinha hoje, hein?

- Milagres, que balela...

A Amanda, minha irmã de onze anos, chega da escola chorando:

- Mãeeeee! Não grita comigo...

- Que foi, Amanda?

- Eu tirei 3 em geografia e 2.5 em ciências...

- Ai Deus, agora essa.

Olhei bem pra cara da minha mãe, e sem resistir, soltei:

- Olha aí o seu milagre. Toma essa! Dona Adriana Sbaile, paridora de milagrinhos ambulantes.

- Amanda, por que você tirou notas tão baixas?

- Ai mãe, eu não sei. Eu não sei o que é uma rocha metamórfica, uma rocha magmática... eu não sei o que é um retículo endoplasmático!

Minha mãe olhou para a Amanda com uma cara de “Não posso culpar você, também não sei que porras são essas”.

- Ah, pelo amor de Deus, vocês duas! – Eu grito com o maior ar de pretensão do mundo.

- Ai, lá vem a sua irmã, o poço de sabedoria! – Minha mãe retruca.

- Na boa, vamos pelas palavras: metamórfica, de metamorfose, que se modifica com o tempo; ou seja, uma rocha que era de um jeito e acabou ficando de outro. Agora, magmática, da palavra magma, do vulcão. Uma rocha formada por explosões vulcânicas!

- E o retículo endoplasmático? – A Amanda pergunta.

- Esse eu não sei, só sei que tem a ver com plasma, acho... Ah, sei lá, eu já passei da sexta série, Amanda. É o seu trabalho saber essas coisas.

- Mas não deveria ter passado, já que você não sabe matéria de sexta série.

- Pelo menos eu nunca voltei chorando pra casa por tirar um 2.5 em ciências.

Choro.

- Carol! Pára! Ela é só uma criança.

- Ela me chamou de burra, mãe. Eu estou cansada dessas crianças honestas. Não posso ser feia e burra no mesmo dia. Essa infância contemporânea vai acabar com a minha auto-estima!

- Ai, você estava certa. Alguns filhos só vêm ao mundo para infernizar os outros. E algumas pessoas não podem mesmo ser mães. Ambos são o seu caso.

- Mãe, na boa, eu sempre estou certa.


(Foto: Carolina e Amanda Sbaile - 2009)

3 comments:

Eduardo said...

Nossa, você deve ter sido um doce de criança.

Luizinho said...

Seu(sua) filho(a), imaginário(a), ou não, seria uma criança bem peculiar. Eu gostaria dela.

Você está quase sempre certa, Sbaile. Quando tiver 60 anos vai estar sempre certa.

Mesmo que eu diga o contrário.

tecituras said...

Criança frágil? Balela! Confirmado!

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