Sunday, January 31, 2010

E se eu tiver AIDS? (parte I)


Outro dia recebi uma cartinha da imigração me mandando fazer um exame médico.

- Por que eu preciso de exame médico? Mas que cacete de governo do caralho!

Era bom que eu fosse ao hospital mesmo, porque eu sofro de tremeliques. Não sei o que é, mas eu tenho uns tremeliques. Fico tremendo por horas. Às vezes derrubo café, não consigo escrever à mão... Enfim, é um saco.

Fui ao hospital.

Sala de espera.

- Você pode preencher esse formulário? – a recepcionista pergunta.

Oito filhas da puta páginas! Eu começo a preencher.

- Sbaile!

Eu olho. É o Muhammad. Muhammad? Conheci na faculdade.

- Muhammad!
- Você tá bem, Sbaile?
- Eu tô. E você?
- Eu tô bem. Por que você veio até aqui?
- Pra passar o tempo.
- Ah é?
- É. E você?
- Engravidei.
- Parabéns!
- Obrigado.

Silêncio.

Um cara de rastafári senta do nosso lado.

- Você ainda fala com o povo da faculdade, Muhammad? – Eu pergunto.
- Não, não. Você?
- Também não.
- Muhammad... Ali. – o rastafári solta.
- Ele é da família. – eu respondo.
- É mesmo?
- É. Muhammad Ali, Muhammad Mamed, Muhammad Abdul e Muhammad Maluf... São os irmãos. – eu.
- Que loucura! Eu adoro seu irmão, cara! Muhammad Ali, esse é o cara! – o rastafári pira na minha mentira.
- Vou falar que você mandou lembranças. – o Muhammad responde.
- Cara... Nossa... Bicho... Cara... Fala pra ele que ele foi o melhor! Que ele é lenda!
- Vou falar, vou falar...
- Vocês dois são casados?
- Somos. – o Muhammad responde.
- Bacana... Legal. Vocês são de onde?
- Arábia Saudita.
- Ah, eu sou Jamaicano.
- Não diga! – eu, muito surpresa.
- Sério. De Kingston!
- Olha só, que coisa. – Muhammad.
- Mas, mas... Vocês são mais americanizados, né? Porque sua mulher não tá com o véu na cabeça.
- Hoje eu liberei. – Muhammad.
- Ela tem que usar o véu, então?
- Ela e as minhas outras quatro esposas.
- Você tem quatro? Mentira.
- Fala pra ele, Sbaile.
- Eu sou a esposa número dois.
- Não acredito! Uma mulher bonita assim, com um gorducho desses! E ainda dividindo? Isso não pode ser...
- Na Jamaica não é assim? – eu pergunto.
- Imagine! Mulher jamaicana não aceita esse tipo de coisa!
- Porque vocês homens jamaicanos não colocam elas na linha! – o Muhammad fica indignado.
- Não cara... Mulher tem que ter liberdade! Elas podem ser livres também.
- Livres? Mulheres? Não, não, isso é absurdo... – Eu.

O Jamaicano ficou louco.

Tremelique. Tremelique. Tremelique.

- Por que sua mulher tá tremendo?
- Putz, Sbaile... Por que você tá tremendo?
- Não sei. Acontece.
- Mas bicho, seu irmão... O Ali, ele só tem uma esposa...

Não acredito!

- Carolina Sbaile? – A recepcionista me chama.
- Opa. É a minha vez. Tchau, meninos.

Entrei no consultório do Dr. Mancini.

- Boa tarde. – Ele fala.
- Boa tarde.
- O que eu posso fazer por você hoje?
- Exames para imigração.
- Ah... HIV, sífilis, hepatite, drogas e físico então?
- Quê?
- Esses são os exames da imigração.
- HIV?
- É.
- Credo. E esse de drogas?
- É para álcool, maconha, cocaína, heroína e derivados da heroína.
- Hahahaha! Ainda bem que eu só uso o cogumelo da alegria.

Ele me olha com uma cara espantada.

O Dr. Mancini tira meu sangue e faz o exame físico. Depois diz que eu preciso de três vacinas.

- Aaaaaiiiiiiiii! Puta que o pariu! Caralho! Porra! Merda! Cacete e BUCETA!
- Que foi? – a enfermeira se espanta.
- Essa vacina dói muito!
- Espera pra ver quanto ela custa, aí você vai até chorar...
- Quanto ela custa?
- 165 dólares.
- QUÊ?
- Um absurdo, né?
- Eu tenho que pagar por isso?
- Claro que tem. Você está na América, gata!
- Credoooooo! Extraia essa vacina de mim! Eu não quero ela... anda! Tira ela de mim!
- Haha! Eu não posso mais. Alem disso, você precisa da vacina pro seu green card.
- Que roubo. Eu fico puta e... Aaaaaaiiiiiiiiiiiii!

Outra vacina.

- Quanto custou essa?
- 35 dólares.
- Nossa, que beleza. Tá na promoção?
- Haha. Você é engraçada.
- Ah... que... Aaaaaaaaaaaiiiiiiiii!

Outra vacina. Mas que porra!

- Então, enfermeira... Quando eu volto aqui pra saber se eu sou uma aidética alcoólatra viciada em heroína?
- Semana que vem tá pronto.
- Obrigada.

Tremelique.

- Meu Deus! Será que você está tendo uma reação à vacina?
- Não, é só tremelique.
- Deixa eu confirmar com o Dr. Mancini.

O Dr. Mancini entra na sala.

Tremelique.

- É tremelique. – ele fala.
- Tá vendo, enfermeira? Eu falei... Mas... Dr. Mancini, por que eu tremo?
- Sistema nervoso, você é estressada e o corpo demonstra o estresse dessa maneira.
- Isso é normal?
- Bom, estresse pode causar problemas de circulação, cânceres e paradas cardíacas.
- Credo! Eu não quero essas coisas. O que eu faço, Dr.?
- Eu posso receitar um remédio, é natural mas um pouco caro...
- Quanto?
- 85 dólares a caixa que dura uma semana.
- Deixa quieto, eu prefiro câncer.
- Ou você pode fazer terapia.
- Quanto custa a terapia?
- De 120 a 200 por hora.
- Não, câncer tá bom pra mim.

Conta final dos exames: 524 dólares. Puta que o pariu! América, seu monstro engolidor de grana.

Sai do consultório.

- Hey! Senhora! Senhora Muhammad!
- Ai céus!

Sim, era ele: o rastafári.

- Pois não?
- Seu marido te abandonou! Ele saiu, já faz uma meia hora.
- Eu sei. Eu mereço ser tratada assim.
- Sra. Muhammad... A Sra. Vai me desculpar mas... Não aceite essa condição de vida! Isso que ele faz com a Sra. é muito cruel.
- Rastafári, eu tenho que te falar uma coisa: a gente tava brincando. Não somos casados. Era tudo mentira.
- Então ele não é seu marido?
- Não, ele é meu colega de faculdade.
- Ah tá... Mas...
- Sim?
- Ele é mesmo irmão do Muhammad Ali?
- É, Rastafári, ele é.
- Cara, que demais!

2 comments:

Anonymous said...

Alguém precisava de um conforto nessa história. Ainda bem que o jamaicano teve! Adorei Sbaile.

Bjus Caio

tecituras said...

A burocracia por outro ângulo! Sua escrita é muito gostosa de ler!
beijoss
Gi

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