Tuesday, January 26, 2010

Funeral Afro-Americano

Há alguns anos atrás, conheci minha melhor amiga da Flórida: Senhorita Destiny Golden.



O pai da Destiny abandonou a família quando ela era bebê ainda. Aos 15 anos, a mãe da Destiny sofreu um derrame e ficou paralisada no lado direito. A Destiny então se tornou responsável pela mãe e teve que largar os estudos. Aos 24, a mãe da Destiny teve um problema sério de circulação, o que levou os médicos a amputarem a perna esquerda dela.



Foi então que a Destiny não agüentou mais: colocou a mãe em um hospital permanentemente e voltou a estudar. Hoje, a Destiny é jornalista.



A família Golden, apesar de ter um sobrenome judeu (só Deus sabe o porquê), é extremamente evangélica e afro-americana.



Eu poderia escrever um livro só sobre negros americanos e suas peculiaridades, manias e filosofias. Claro que cada indivíduo é único, mas existem várias coisas sobre a cultura afro-americana que são, no mínimo, fascinantes e hilárias.



A Destiny cresceu cantando no coro da igreja. A voz dela é sensacional, fora do comum. Ela é fora do comum, fantástica, menina incrível!



- Sbaile, a tia Rita morreu. – A Destiny me liga.

- Ela não tinha morrido o mês passado?

- Não, aquela foi a tia Joane.

- Foi a que eu conheci?

- Não, você conheceu a tia Elaine.

- Meu! Quantas tias você tem?

- Vivas? 12.

- Tá brincando!

- Não, não... verdade. Eu sou preta, Sbaile...

- E...?

- Preto gosta de procriar.

- Tô vendo...

- Mas então, você quer ir ao funeral comigo?

- Não, honestamente.

- Vai ser divertido!

- Divertido?

- É! É funeral de preto...

- E...?

- E preto é sempre animado!

- Ah é?

- É. Você vai ver! Depois a gente vai beber em algum lugar com a tia Lakisha e a tia Denise!

- Meu Deus... tá, tá bom.



Toca a Destiny passar na minha casa com uma caminhonete lotada de tias.



- Sbaile! Não acredito que você não está pronta ainda!

- Quê? Tô pronta! Prontíssima.

- De jeans?

- É, ué...

- Não, veste uma saia preta!

- Por quê?

- É funeral... você tem que ir de saia preta.

- Ai Deus... Não raspei a perna.

- Raspa aí rapidinho, vai...

- Caralho, Destiny...



Lá vou eu colocar a maldita saia preta.



No carro, as 678 mil tias que cabiam naquele veículo usavam óculos de sol.



Chegamos ao funeral. Lá estava a pobre tia Rita. Ela devia pesar uns 180 quilos.



- Destiny! Ow... Destiny!

- Que é, Sbaile?

- Por que todo mundo tá de óculos de sol?

- Ah, porque a gente é preto...

- Essa é sua resposta pra tudo agora?

- Sbaile... Você não sabe nada sobre pretos...

- Como assim?

- Pretos são assim, ué... óculos de sol em funeral é coisa da gente.

- Mas por quê?

- Eu não sei por que... Só sei que a gente é assim.

- Afff.



Não havia um branco sequer naquele funeral a não ser eu. Todo mundo me olhava como se eu fosse a assassina da tia Rita.



- E você, quem é? – um dos 8 filhos da tia Rita me pergunta.

- Eu era manicure da sua mãe.

- É mesmo?

- É.



Alguns minutos passam.



- Sbaile! Você falou pro Greg que era manicure da tia Rita? – A Destiny pergunta indignada.

- Falei.

- E por que você mentiu?

- Destiny... Você falou que esse funeral ia ser animado. Não tá animado coisa nenhuma. Eu tive que mentir.

- Quê? O que você acabou de falar não faz o menor sentido!

- É que eu sou branca...

- Quê?

- Nós brancos somos assim. Não fazemos sentido.

- Sbaile, a tia Rita só ia em salão de preto. Ele sacou que você tava mentindo...

- E daí, Destiny?

- E daí que o primo Greg é...



Hora do discurso.



E não é que o primo Greg me sobe no palquinho pra falar sobre a tia Rita! De óculos escuro e vestindo preto... Senhoras e senhores: o primo Greg!







- Senhoras e senhores aqui presentes, hoje é o dia do funeral da minha mãe, Sra. Rita Golden, que já foi dona de uma casa de jogatina...

- Olha a tia Rita... pecadora... – Eu falo no ouvido da Destiny.

- Sbaile, chega!



- ...Mas que foi salva pelo Senhor!



Ah não!



- Senhoras e senhores: esta mulher que já foi alcoólatra, que já foi viciada em jogo, que já foi pecadora carnal... Hoje descansa na paz do Senhor, porque ela genuinamente aceitou o sangue de Cristo...

- Amem! – alguém de saia preta e óculos de sol grita.

- ... Mas eu não estou aqui pra falar da minha mãe...



Ha! Não? Que discurso original para um velório.



- ...Não! Estou aqui para falar da salvação de Cristo! Porque eu, assim como minha mãe, fui salvo pelo Senhor. Um homem bateu na minha porta num certo domingo, ele me perguntou: “Você é Greg Golden?” “Sim, eu sou o Greg Golden” – eu falei. Tia Verônica estava comigo naquela momento. Não é verdade, tia Verônica?

- Sim, é verdade! – Ela grita.

- ...Ela estava comigo. Porque o Senhor sempre tem uma testemunha! E o homem que bateu na minha porta caiu no chão ao ouvir meu nome. Eu pensei que ele tivesse caído de morto. Não é verdade tia Verônica?

- Sim!

- Porque o Senhor sempre tem uma testemunha! Mas ele não estava morto, ele estava lá para me salvar. E eu fui salvo. Na semana seguinte, eu fui à Igreja e o pastor falou meu nome no meio do sermão. Primo Justin estava comigo. Não é verdade, primo?

- É!

- Porque o Senhor sempre tem uma testemunha! E dessa vez, fui eu que caí no chão, porque fui atacado pelo raio divino da salvação. É ou não é, Justin?

- É!

- Porque o Senhor sempre tem uma testemunha! E naquele momento eu entendi o sentido da vida. Voltei pra casa, nunca mais bebi. Minha mulher sabe. Sabe ou não sabe, Vivian?

- Sei!

- Porque o Senhor sempre tem uma testemunha!



PUTA QUE O PARIU!



E dalí pra frente, o discurso foi ficando cada vez mais absurdo.



- Destiny, preto ou não preto... isso é ridículo!

- Eu sei, Sbaile... Eu sei. Essa é a parte divertida.

- Sério? Essa é a parte divertida? Puta merda, Destiny, sua completa vaca...

- Shhh! Eu não posso rir.

- Rir? O que tem aqui pra rir? Não é pra rir, eu tô puta com você!



- PORQUE O SENHOR SEMPRE TEM UMA TESTEMUNHA!



E o discurso acabou assim. Ha! Quem diria, huh?



Dei uma última olhada na tia Rita e falei com ela: “Tia Rita, aonde quer que você esteja, você está melhor que a gente aqui!”



Antes de eu finalmente sair daquela capelinha patrocinadora da Oakley, primo Greg voltou a falar comigo:



- Você acha que o Senhor aprova suas gracinhas?

- Me desculpe, primo Greg. Não sei por que menti pra você. É que eu não tinha sido salva até o dia de hoje. Não é verdade, Destiny?

- É, é verdade.

- Porque o Senhor sempre tem uma testemunha. É ou não é, primo Greg?

1 comment:

Gisèle Miranda said...

Conto real!? Diversidade no cotidiano. adorei!
beijosss
Gi

ps. republiquei Vó Zeni no blog novo!

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