Tuesday, March 30, 2010

EU POSSO LÁ FICAR AMERICANIZADA?


Depois de quase um ano desempregada na terra das oportunidades, consegui um trabalho de assistente de edição para os promos da ESPN.

Leitores, até que enfim!

A primeira pergunta que o diretor de marketing me faz é: “Você nasceu no Brasil, né?”. Achei estranho que essa fosse a primeira pergunta da entrevista. Respondi que sim, que era brasileira. Aí ele solta:

- Mas você já está aqui há muitos anos?
- Quase três. – eu respondo.
- Em Nova Iorque?
- Não, sempre na Flórida.
- Você já perdeu seu sotaque. Pensei que tivesse sido criada em Nova Iorque.

O produtor comenta:

- Ela se veste como alguém que veio de Nova Iorque, tá americanizada já.

Eu tento levantar uma sobrancelha só, mas não consigo. Nunca consegui levantar uma sobrancelha só. Acho o maior charme. É a expressão de “Como é que é?” com classe. Não sei cantar também, ou tocar piano, ou desenhar bem, ou dançar. Eu sou uma das pessoas mais sem talento do meu grupo de amigos. Bem que eu podia conseguir levantar uma sobrancelha só... Mas não! Nem isso.

Lembro de ter tido uma crise de choro aos 14 anos, na aula de Português do primeiro colegial. O Luiz, meu irmão gêmeo de outra encarnação, ficou preocupado e perguntou: “Que é, Sbaile?”. Eu respondi: “Eu não sei fazer nada, Luiz!”. Ele, que sabia desenhar, costurar, cozinhar e tocar guitarra, falou: “É, verdade. Mas isso não importa muito. A gente gosta de você assim mesmo. Agora pára de ser bicha e engole o choro!”

Da última vez que voltei ao Brasil, meus amigos me acusaram de ter sotaque americano. Comentaram sobre as minhas roupas de gringa, meus saltos, minha maquiagem pesada, minha franja de Betty Page e meu batom vermelho. Eu mandei eles irem se foder, falei que queria pizza do Esperanza e esfiha do Jaber.

Tudo veio à tona quando ouvi o produtor dizendo que eu era uma “americanizada”. Os dois entrevistadores estavam querendo saber mesmo se eu conhecia futebol, porque eles precisavam de alguém para fazer os promos da copa. Ao invés de perguntarem “Você gosta de futebol?”, eles perguntaram se eu tinha crescido no Brasil, é claro, quem nasce no Brasil joga bola, já foi modelo algum dia na vida, tem bunda grande e samba no pé.

Quase respondi estilo Carmen Miranda: “Eu posso lá ficar americanizada? Eu que nasci no samba e vivo no sereno...” Mas isso também não é verdade. Nunca fui muito brasileira. Não sambo, não toco pandeiro, não sou modelo e não jogo bola - mesmo que eu tenha sido parte do time campeão estadual de futebol feminino em 1999. Há! Aposto que vocês não sabiam dessa. Depois joguei minha medalha na privada, num ato trágico estilo Muhammad Ali, só que sem motivos ideológicos, porque eu era uma idiota mesmo.

Eu também não me sinto americana. Eu não me sinto de lugar nenhum. Sou um fantasma com um passaporte cheio de vistos estampados. É o eterno drama do imigrante, o inexorável sentimento de não pertencer – o que pode levar a uma tenebrosa confusão com o sentimento de não ser. Antes de entrar em crise de novo, aqui vão minhas considerações finais sobre o ser e o pertencer do imigrante:

São americanas as minhas blusas de oncinha, minhas jaquetas de zebrinha, meu cabelo moderninho, meu gosto musical, meu David Lynch, meu marido ilustrador bêbado gente boníssima, meu Scott de tapa-olho, minha diva Stella aka Semente do Mal, minha educação formal, minha preguiça de andar, minha ilha de edição particular, meus pubs irlandeses, minha Destiny, meus afro-americanos hilários, meus judeus artistas, meus branquelos roqueiros, minha Nova Iorque charmosa, meu amor pelo Iggy Pop e meu plano de telefone ilimitado por 60 dólares mensais.

São brasileiras as minhas noites de punk aos 14 anos com as meninas do Paraíso, foi no Brasil que eu me apaixonei pela primeira vez, perdi minha virgindade, depois dei um pé na bunda do cara. Ele, o cara, me chamou de vaca, puta, galinha e desgraçada, depois virou amigo e voltamos a ir a shows juntos. Também são brasileiras as duas avós mais legais do mundo, minha irmã Amanda, minha falecida dobermann e melhor amiga, a Hannah; meu kibe, minha Brahma, minhas longas tardes patinando pela Aclimação, meus porres adolescentes, meus travecos, meu centro da cidade, minha PUC, meu Luiz, meu Caio, minha Malu, meu Alex, minha Rhady, minha Gisele, meu Paulinho (o nipo-pernambucano)... E, claro, meu sake, meu rodízio de sushi e minha fantástica Liberdade, na qual eu fui criada.

6 comments:

K! said...

ae seus toxas!! olha eu ali!!! o nipo-pernambucano!!!! rsssssssss

sbaileeeeeee... amo-te!

:********

Alex said...

Foda né, você é a minha proprietária...ficou americanizada com este comentário sobre um brasileiro.

Favor devolver a Amazônia.

Att,

seu Alex.

Miss Sbaile said...

"Meus" mesmo! Todos vocês! Pode ficar com a Amazônia, mas a Gisele é minha :D

tecituras said...

Ôpa! Será que essa tal Gisele sou eu? Se não for será que posso ser, Rs!

Vc tem massa cinzenta!!!! Só não nasceu para costura, samba, mas sabe como poucos de sua geração e de outras tb, fazer dos seus pensamentos e convívios - as maravilhosas crônicas que leio.
Que bom que vc conseguiu um emprego. Eu me tornei uma inimpregável assumida, sem dotes tb para a costura... e desde pequena um ser bem esquisito - jogava bola de gude, empinava pipa, batia e beijava os meninos! Rs!
Quem te viu e te achou diferente no Brasil deve ter visto "estilo" próprio e não americanização.

beijosss
Gi

Miss Sbaile said...

É você!!! Eu nunca joguei bolinha de gude, empinei pipa uma vez só (foi um fracasso)... agora, bater e beijar meninos, isso eu continuo fazendo! Haha! Loucas fabulosas! Beijo!

schulai said...

É Sbaile para você ficar americanizada de vez só falta você preferir séries ao invés da novela, football ao invés de soccer e Mac Donald's ao invés de Churrasco! Espero que não esteja nesse estágio rs.

Bjs

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