Tuesday, March 2, 2010

Mãe? Você não tinha morrido?


Freud diz que você tem que matar o pai (eu sei, ele não fala assim, desse jeito esdrúxulo, mas eu estou simplificando pra encurtar). Veja que sacada de gênio. Claro que ele tinha que ficar famoso.

Matar o pai. Termo forte.

Aí vem Jung dizendo que você tem que matar a mãe.

Ah, a psicologia e suas chacinas familiares.

Eu tinha matado a minha mãe... Até que ela descobriu a internet.

Comecei a receber e-mails da minha mãe. Ela estava choramingando, falando que estava arrependida, que tinha perdido uma filha e coisa e tal.

Minha mãe é uma dessas místicas que acredita em tarô, os astros, a lua, o além, o Deus Rá, etc.

Na verdade, não sei se ela acredita no Deus Rá. Mas vocês sabem o tipo de figura da qual eu estou falando, não?

Recebo um e-mail:

“Filha,

Fui numa vidente que a Bárbara indicou. A mulher é foda. Ela falou que você é filha de Oxum com Obaloaê. Tem que acender uma velinha pro seu santo, filha!

Por aqui, tá tudo bem. a aMANDA ESTA LINDA E TE MANDA UM BEIJO.

POR QUE AS LETRAS FICARAM GRANDES E OS ACENTOS SUMIRAM? BOSTA! AMANHA DESCUBRO.

BEIJO,

MAMAE”

Pergunta: como um ser desses pode ter saído de dentro da vó Zeni?

Resposta: Expliquem essa agora, Freud e Jung!

Freud, Jung... Há! Queria eu ver esses dois tentando entender Oxum, Obaloaê, Erê, tarô, macumba, letras grandes no computador e os comentários infames da minha mãe sobre a novela das oito.

Essa, meus caros, nem Freud explica.

Para piorar a situação, a tia Tânia também fazia parte da turminha da macumba. Uma vez ela me disse que Jesus era um alienígena e que Maria tinha sido, na verdade, abduzida. Um extra terrestre inseminou a Maria artificialmente, então Jesus era meio humano, meio alienígena.

Quando escutei essa, eu tive vontade de tirar meu sobrenome do papel. Pensei: “Eu não quero ser uma Sbaile. Eu não vou fazer parte desse clã de doidas. Preciso me casar logo com alguém normal e mudar meu sobrenome.”

Depois do primeiro e-mail, minha mãe começou a ficar mais sofisticada: mandava fotos e letras de música dos Gypsy Kings. Ela tinha aprendido a copiar e colar.

Eu quase nunca respondia.

Foi então que ela descobriu uma das coisas mais cavernosas da internet depois de vírus (caso você ainda use Windows); o e-mail Power Point.

O e-mail Power Point parece inocente. Mas é, na verdade, uma arma de mães por todo mundo que querem levar seus filhos à loucura.

Abro a caixa de e-mail.

“Você tem 25 novos e-mails de Adriana Sbaile”.

Não acreditei.

Os títulos são os mais bizarros:

“O Papa e o Negão”.

“O Padre e o cú” (eu nem quero imaginar as imagens que vêm com um Power Point intitulado assim).

“A corrente de São Sebastião das causas impossíveis”

“Mulher com câncer tem filha aidética de marido viciado em craque e faz a vida valer a pena”.

Eu fico pensando: quem inventa esses e-mails?

Esses Power Points têm que ter um início. Existem alguém, que algum dia fica entediado e pensa:

“Nossa! Aquela história da mulher com câncer que tem uma filha aidética do marido viciado em craque, vai dar um Power Point incrível. Tudo o que eu tenho que fazer é encontrar algumas imagens de resolução mínima no Google e criar essa apresentação com o fundo mais brega que eu achar. Depois eu mando isso para minha lista de 769 amigos que conheci no Orkut.”

Mas aí tem a sacada: o criador de e-mails Power Point ridículos tem que ficar popular. Então ele termina o e-mail com a última página assim:

“Mande este e-mail para 20 pessoas da sua lista e sua vida começará a valer à pena. Caso você ignore este e-mail, amanhã você acordará com câncer, seus filhos terão AIDS e seu marido começará a usar craque.”

E é esse o ciclo. Porque, se amanhã eu acordo cancerígena com uma filha aidética e um marido viciado em craque; eu vou, muito provavelmente, terminar com meu rosto estampado em um Power Point na caixa de e-mail de milhares de pessoas.

Você me entende, leitor? Esse é o intuito do criador de e-mails Power Point. O ciclo nunca pode terminar.

Eu tinha que dar um fim naquele ciclo!

Liguei pra minha mãe:

- Mãe, você tem que parar de me mandar esses Power Points!
- Ah, você não gosta? Eu acho tão bonito.
- Eu não gosto.
- Você viu aquele da mulher morrendo no hospital que adotou um cachorro de rua e curou a sarna dele?
- Mãe... na boa...
- Aquele é bem interessante. Mas sabe, filha... Eu preciso de ajuda.
- Há! E só agora você se deu conta disso?
- Meu teclado tá doido.
- Ah, esse tipo de ajuda...
- A letra “z” sumiu. Agora tenho que escrever tudo com “s”. E pra explicar para as pessoas que o “z” sumiu? Eu tenho que falar: estou sem a última letra do alfabeto no teclado. E aí...
- Mãe. Chega. Sério!
- Você acendeu uma velinha pro seu santo?
- Mãe, você sabia que Jesus era meio alienígena, meio humano? A Maria foi abduzida por extra-terrestres que fizeram uma inseminação artificial nela.
- Jura?
- Tchau, mãe.
- Mas...

Desliguei.

No dia seguinte:

“Você tem 32 novos e-mails de Adriana Sbaile”

PS - Mãe, te amo. Antes de você ler esse texto, ficar puta da vida e encher minha caixa de e-mail com motivos pelos quais você não é uma mãe ruim, espere até ver o que eu escrevi sobre o meu pai (porque eu sei que você lê o blog e ele não!). E ah, obrigada por me depositar o dinheiro. E ah, ainda não acendi a vela. E ah, não tenho como assistir a novela daqui.

3 comments:

schulai said...

Só você mesmo! O jeito é: ou troca de e-mail, ou troca de mãe! rsrsrsrs

Bom Texto!


Bjssss

Dea said...

Cara, se vc usar o gmail é facil! Filtra todos os emails vindos dela para ir direto para a sua lixeira! Vc nem fica sabendo hehehe

adoro Carol!! :D
beijooo

tecituras said...

"Sou obrigada a dar um dois, tribuna mestre não prende por isso"! (OTTO)
Adoro seu humor mal-humorado! Ainda não consegui falar com a cigana-mãe! beijoss
Gi

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